Há 80 anos, 73 mulheres voluntárias partiram para a Itália e se tornaram as primeiras militares oficiais do Brasil — um legado marcado por coragem, trauma e conquistas ainda pouco conhecidas.
Quando o Brasil enviou 25.000 soldados à Itália durante a Segunda Guerra Mundial, entre eles estavam 73 mulheres. Voluntárias, determinadas e pioneiras, essas enfermeiras foram as primeiras a integrar oficialmente o Exército Brasileiro — e suas histórias permaneceram à margem por décadas. Sobretudo pelo esforço de pesquisadores e de veteranos comprometidos com a memória nacional, esse legado começa, finalmente, a ser resgatado.
Daniel Mata Roque, presidente da Associação Nacional dos Veteranos da FEB (ANVFEB), dedica parte de sua vida a esse trabalho de preservação histórica. A Casa da FEB, no centro histórico do Rio de Janeiro, guarda há mais de 60 anos documentos, fotografias e objetos dos homens e mulheres que lutaram pela democracia em solo europeu. No momento da gravação de seu depoimento, apenas 24 veteranos ainda estavam vivos em todo o Brasil, com idades entre 100 e 109 anos.
Voluntárias em um mundo de convocados
Ao contrário dos soldados masculinos — em grande parte convocados —, todas as enfermeiras foram voluntárias. Muitas vinham de famílias com tradição militar e enxergavam na guerra uma oportunidade histórica de ingressar nas Forças Armadas. Desse modo, a decisão de partir não era apenas patriótica: era também uma afirmação de pertencimento a um espaço que ainda não as reconhecia formalmente.
No entanto, ao chegar à Itália, essas mulheres depararam-se com um impasse institucional. Usavam fardas, cumpriam hierarquia e batiam continência, mas não tinham posição clara no organograma militar nem divisas nos uniformes. Por outro lado, sua presença era indispensável nos hospitais de campanha. Assim, sua identidade funcional foi sendo construída de forma improvisada ao longo de toda a campanha — uma contradição que reflete, em miniatura, a relação histórica entre as mulheres e as instituições militares brasileiras.
O peso invisível da guerra
Duas trajetórias concentraram a pesquisa de mestrado e doutorado de Daniel Mata Roque: a da capitã Altamira Pereira Valadares e a da capitã Zilda Nogueira Rodrigues. Ambas retornaram ao Brasil com diagnóstico severo de neurose de guerra — o que hoje reconhecemos como Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Ainda assim, cada uma encontrou na preservação da memória uma forma de elaborar o que viveram.
Altamira Pereira Valadares retornou ao interior de São Paulo, na cidade de Batatais, e fundou, com recursos próprios, um museu e centro de documentação sobre a Segunda Guerra Mundial. Além disso, mandou gravar três estrelas azuis — insígnia de capitão — no portão de sua casa, como símbolo permanente de sua identidade de veterana. Sua história é um exemplo raro de resistência silenciosa: sem reconhecimento institucional, ela criou o próprio monumento.
Zilda Nogueira Rodrigues, por sua vez, seguiu outro caminho igualmente significativo. Carioca de nascimento, tornou-se membro fundadora da ANVFEB e militou intensamente pelo reconhecimento profissional da enfermagem obstétrica. Nesse contexto, passou à história como a primeira mulher a atingir o posto de capitão nas Forças Armadas brasileiras — uma marca que até hoje define seu lugar na história militar do país.
Uma conquista construída ao longo de décadas
Com o fim do conflito em 1945, as enfermeiras foram desmobilizadas. Articuladas politicamente, no entanto, não abandonaram a luta pelo reconhecimento. Doze anos depois, em 1957, conseguiram a aprovação de uma lei que permitiu seu retorno à carreira militar em tempos de paz — uma vitória legislativa que custou mais de uma década de pressão coletiva.
Desse ponto em diante, o caminho foi sendo aberto, ainda que lentamente. A Marinha criou seus primeiros quadros femininos regulares em 1980; a Força Aérea seguiu o mesmo caminho em 1982; e o Exército, por fim, instituiu concursos para mulheres em 1992. Atualmente, o Brasil já conta com mulheres alcançando o oficialato general nas três forças — uma trajetória que começa, diretamente, com o sacrifício dessas 73 pioneiras há oito décadas.
A memória como missão coletiva
A ANVFEB reforça que não faz apologia à guerra. Pelo contrário, o trabalho da associação é de reflexão, dissuasão e preservação. Um veterano ferido em combate, Antônio de Pádua, resumiu com precisão dolorosa: para que os brasileiros entendessem o que viveram na Itália, seria preciso que a guerra chegasse ao próprio território nacional. Portanto, ele preferia que o povo permanecesse na ignorância — e assim fosse poupado dessa tragédia.
Nesse sentido, Daniel Mata Roque lembra que a doutrina das Forças Armadas brasileiras é a da dissuasão: preparar-se para que o conflito nunca seja necessário. Ainda assim, conhecer a história de quem já foi à guerra é parte essencial dessa preparação — sobretudo quando essa história envolve mulheres cujos nomes raramente aparecem nos livros didáticos.
Serviço
Local: Casa da FEB — Centro Histórico do Rio de Janeiro, RJ Acervo: Aberto ao público. Documentos, fotografias e objetos da campanha italiana Vídeo completo: https://youtu.be/gtx2WR4Wo_Q Contato: ANVFEB — Associação Nacional dos Veteranos da FEB
Oitenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, as enfermeiras da FEB seguem sendo a referência fundadora de toda a trajetória feminina nas Forças Armadas brasileiras. Suas histórias de voluntariado, trauma e resistência institucional lançaram as bases para que mulheres hoje ocupem postos de general. Desse modo, honrar essa memória não é apenas um gesto de justiça histórica — é reconhecer que a igualdade conquistada hoje tem nome, rosto e uniforme.
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