Karen Aranha vive no Cairo há quase dois anos, conquistou a guarda unilateral em dois países e ainda aguarda o reencontro com o filho sequestrado.
Uma mãe, dois países e uma batalha sem prazo para terminar
Setembro de 2022 marcou o início de um pesadelo real para Karen Aranha, brasileira de São Paulo. Naquele mês, ao retornar de uma temporada de trabalho em Londres, ela descobriu que o filho Adam havia sido levado pelo pai para o Egito, sem qualquer autorização judicial ou materna.
Desde esse momento, a vida de Karen foi completamente reorganizada em torno de uma única missão: rever o filho.
Da viagem a Londres ao desaparecimento do filho
Karen atuava como profissional de limpeza no Reino Unido quando o pai de Adam fugiu com a criança. Ele atravessou a fronteira brasileira pelo Paraguai, fez escala em Madri e chegou ao Egito, de onde nunca mais saiu com o menino.
Somente uma videochamada realizada ainda em 2022 confirmou que Adam estava vivo. Desde então, nenhum contato direto foi possível entre mãe e filho.
Investigações internacionais e rastreamento pela Interpol
A partir das denúncias formalizadas no Brasil, a Interpol rastreou o trajeto percorrido pelo pai da criança. Desse modo, ficou confirmado que Adam permanece em território egípcio até hoje.
Tanto o pai quanto a avó paterna são considerados foragidos pela Justiça. Além disso, foi decretado formalmente um sequestro dentro do próprio Egito, ampliando o alcance legal das buscas.
Guarda conquistada nos dois países, filho ainda não encontrado
Em novembro de 2025, Karen obteve a guarda unilateral de Adam no Tribunal de Apelações do Cairo. Portanto, tanto o Brasil quanto o Egito reconhecem legalmente que Adam deve estar sob os cuidados da mãe.
No entanto, duas buscas recentes realizadas em endereços suspeitos não resultaram no reencontro. O paradeiro da criança segue desconhecido até a publicação desta reportagem.
Vivendo no Cairo à espera de uma ligação
Há cerca de um ano e oito meses, Karen reside formalmente no Egito como residente legal. Ela mantém contato contínuo com a embaixada brasileira, o Ministério das Relações Exteriores e as autoridades egípcias envolvidas no caso.
Ainda assim, a ausência de uma rede de apoio presencial pesa no cotidiano. Sobretudo nos dias em que as buscas chegam a endereços vazios e o silêncio se impõe como resposta.
Fé, xaria e conhecimento como ferramentas de luta
Para se defender nos tribunais egípcios, Karen estudou a xaria, conjunto de normas islâmicas que integra diretamente o judiciário local. Desse modo, ela descobriu que a própria legislação islâmica privilegia a mãe na custódia dos filhos — contrariando o senso comum amplamente difundido.
Segundo a xaria, o filho pertence à guarda materna até os 15 anos. Além disso, o valor da mãe é considerado três vezes superior ao do pai dentro da tradição corânica. Esse conhecimento foi determinante para reverter a primeira decisão judicial desfavorável a Karen, obtida em instância inferior.
Violência patrimonial, documentos roubados e recomeço forçado
Além do sequestro do filho, Karen enfrentou a destruição sistemática do seu lar. O pai de Adam deixou dívidas no condomínio, roubou documentos pessoais — incluindo papéis da mãe falecida de Karen, guardados por 30 anos — e esvaziou suas contas bancárias.
Por outro lado, o acolhimento de uma tia impediu que a situação se tornasse ainda mais grave. A partir daí, a rede de seguidores nas redes sociais tornou-se seu principal suporte financeiro e emocional para continuar a luta.
Alerta às brasileiras: a internet distorce a realidade
Karen faz um alerta direto às mulheres que iniciam relacionamentos pela internet com homens de países islâmicos. Segundo ela, muitos vínculos formados virtualmente resultam em armadilhas culturais e jurídicas severas, invisíveis antes da chegada ao país.
Nesse contexto, ela denuncia que diversas mulheres chegam ao Egito sem compreender que a liberdade de ir e vir pode ser legalmente restringida após o casamento. Enquanto isso, perfis em redes sociais continuam romantizando essa realidade de forma irresponsável e, muitas vezes, intencional.
Passaporte brasileiro como atrativo e fator de vulnerabilidade
Outro ponto levantado por Karen diz respeito ao passaporte brasileiro, um dos documentos de viagem com maior acesso global sem necessidade de visto. Assim, a cidadania brasileira pode se tornar um atrativo para relacionamentos com intenções que vão além do afeto.
Nesse sentido, Karen relata ter sido vítima do chamado “golpe do noivo”, prática em que o relacionamento é construído com o objetivo de obter documentação brasileira. Por isso, ela reforça a importância de buscar informação jurídica antes de qualquer mudança internacional.
Como ajudar Karen e o Adam
Quem deseja apoiar Karen pode acessar o Instagram @aranhaadam, onde estão reunidos todos os canais de contribuição:
- Vaquinha online
- GoFundMe — Mãe Pai Ação Internacional
- Pix pessoal
A hashtag oficial da campanha é #JustiçaPeloAdam.
Uma história que ecoa além de uma família
A luta de Karen Aranha transcende o caso individual e lança luz sobre dezenas de mães brasileiras em situações semelhantes em países que não assinaram a Convenção de Haia sobre subtração internacional de crianças.
Portanto, dar visibilidade ao caso da mãe do Adam é também contribuir para a construção de políticas públicas mais eficazes. Sobretudo em um cenário em que o trânsito de famílias entre culturas distintas cresce de forma acelerada e nem sempre segura.
Adam tem mãe. E ela não vai desistir.
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