Cristiano Chassard: o artista que transformou a dor em 300 telas durante a luta pela vida do filho

Da fotografia digital à pintura vibrante, artista catarinense rompe fronteiras entre tecnologia e arte enquanto enfrenta drama pessoal

A explosão criativa nascida da angústia

Cristiano Chassard não consegue lembrar exatamente quando pintou cada uma das 300 telas. Durante oito meses de 2019, enquanto enfrentava uma gravidez de alto risco incompatível com a vida, o artista catarinense entrou em estado de criação que ele mesmo descreve como terapêutico e catártico. Nesse processo, mergulhou na arte como única válvula de escape possível.

Morador de Florianópolis, Chassard desenvolveu uma técnica singular que combina fotografia digital, manipulação em Photoshop, pintura acrílica, bordados e até pedras brasileiras. Além disso, suas obras transitam entre três coleções distintas: Pareidolia, Subexposição no Microcosmos e Desrealismo.

Do Bauhaus familiar à guitarra de rock

A formação artística começou naturalmente ainda na infância. Aos três anos, convivia com móveis Bauhaus na cozinha de casa. Posteriormente, as influências familiares se intensificaram: mãe e tias eram obrigadas a aprender instrumentos musicais pelos avós.

Entretanto, a primeira manifestação artística veio pela música. Formou banda de rock com o primo, tocou guitarra, violão e contrabaixo. Mais tarde, compôs músicas antes de escolher profissão na área tecnológica.

“Sempre fui uma pessoa muito quieta, muito pacata, muito introspectiva”, revela. Desse modo, a arte permaneceu como hobby até 2006, quando descobriu a fotografia.

Altas habilidades e a difícil escolha profissional

Portador de altas habilidades cognitivas, Chassard enfrentou dilema importante no vestibular. Queria tanto o caminho artístico quanto o tecnológico. Por isso, optou pela tecnologia, mas manteve conexão constante com design gráfico.

Empreendeu empresa de metaversos artísticos e trabalha com e-commerce. Atualmente, é professor de marketing estratégico. Ao mesmo tempo, desenvolveu interfaces gráficas e websites com forte apelo visual.

Somente em 2011 começou a transformar fotografias em pinturas. Posteriormente, em 2015, abriu ateliê próprio. Todavia, foi em 2019 que a explosão criativa aconteceu.

Théo: o anjo que transformou tudo

A gravidez trouxe diagnóstico devastador. Doença incompatível com a vida ameaçava o filho. Consequentemente, Chassard mergulhou em luto antecipado. Nesse contexto, a arte tornou-se salvação.

“Eu precisava explodir aquilo tudo para fora”, recorda. Então, pintou compulsivamente, sem noção de tempo. Muitas obras retratam elementos dessa jornada: olho chorando, pulsação da hemodiálise, blástula gestacional.

Théo nasceu contra todas as probabilidades. Posteriormente, passou por transplante de rim. Hoje tem seis anos e é saudável. Além dele, Chassard tem outro filho de oito meses.

Três coleções, universos distintos

Pareidolia

Utiliza imagens de satélite da crosta terrestre, Júpiter ou Lua. Assim, explora fenômeno psicológico que reconhece padrões em formas complexas. Cada pessoa interpreta o que vê de modo único.

Uma das obras principais mostra anjo manifestado no relevo terrestre. “Deixo cada um interpretar o que enxerga”, explica. Dessa forma, a experiência torna-se pessoal e interativa.

Subexposição no Microcosmos

Fotografa elementos muito pequenos, rápidos ou lentos da natureza. Portanto, revela beleza que escapa ao olhar cotidiano: pulgões na grama, vassoura de piaçava, lustre semelhante ao coronavírus.

“É o belo que ninguém está enxergando por causa do ritmo ou da dimensão”, define. Por isso, convida observadores a desacelerar.

Desrealismo

Transforma fotografias de viagens e cotidiano em pinturas que expressam sensações reais do momento. Por exemplo, retrata Estátua da Liberdade com clima de imigração antiga. Igualmente, pinta geleiras sobre pescadores em Florianópolis para transmitir frio intenso.

“Queria pintar aquilo que estava enxergando no meu olho quando bati a foto”, revela. Nesse sentido, recusa limitações do real.

Da rejeição brasileira ao reconhecimento internacional

Durante a pandemia, enviou portfólio para galerias brasileiras via Instagram. Contudo, não recebeu nenhuma resposta. Então, percebeu que o mercado nacional prioriza artistas consagrados.

“No meio da loucura, contratei tradutor de mandarim”, conta. Em seguida, enviou portfólio em português, inglês e chinês para 200 galerias europeias. Em duas semanas, conseguiu representação de nove delas.

A Galeria Makovski, de Berlim, prometeu colocá-lo no mundo. Dessa maneira, participou de Art Basel Miami, Tóquio International Art Fair, Dubai International Art Fair, Xangai e Paris. Contudo, não esteve presencialmente em nenhuma por limitações financeiras decorrentes do tratamento de Théo.

Centenário da Semana de Arte Moderna

O ápice veio pela literatura, surpreendentemente. Em fevereiro de 2022, a PUC de São Paulo convidou Chassard para expor no centenário da Semana de Arte Moderna. Assim, ocuparia o auditório do Tuca, onde nasceu o movimento histórico.

Porém, a variante Ômicron impediu o evento presencial. Diante disso, apresentou galeria virtual em metaverso. Recebeu 32 mil visitantes que interagiram com avatares robóticos transmitindo rostos em tempo real.

“Foi momento mágico e sublime”, relembra. Além disso, leu o Manifesto pelo Digitalismo, texto que defende movimento artístico contemporâneo. Posteriormente, recebeu endosso da PUC.

Digitalismo: audácia de propor novo movimento

O manifesto propõe que arte digital existe desde o teremim nos anos 1920. Posteriormente, expandiu-se por sintetizadores, fotografias digitalizadas e cinema. Atualmente, permeia toda produção cultural.

“É audacioso, meio sem noção até”, admite. Todavia, lembra que o modernismo levou 15 anos para ser levado a sério. Portanto, não se preocupa com críticas.

“Se alguém quiser me chamar de louco no futuro, não tenho problema”, afirma. Dessa forma, liberta-se da pressão de dar segundo e terceiro passos.

Técnicas que desafiam o purismo artístico

Chassard não é bom desenhista por autodefinição. Contudo, acredita que “Deus é bom desenhista”. Por isso, capta imagens divinas da natureza e transforma em pintura.

Utiliza Photoshop para manipular cores, exposição e contraste. Posteriormente, pinta digitalmente com pincel digital. Depois, adiciona tinta acrílica. Finalmente, borda pedras brasileiras sobre as obras.

“Comecei a misturar tudo que eu podia aprender”, explica. Dessa forma, rompe fronteiras entre técnicas tradicionais e digitais. Óleo não utiliza porque atrai mosquitos no sítio onde mora.

José Maria Dias da Cruz: mestre das cores

Apesar de trabalhar com cores vibrantes e explosivas, estudou teoria do cinza sem terno com José Maria Dias da Cruz. O artista carioca residente em Florianópolis ensinou Cézanne, Leonardo da Vinci e mistura de tintas.

“Ele validou o que faço como cores muito vibrantes”, conta. Assim, ganhou segurança de que o trabalho tem validade artística genuína. Por isso, homenageou o mestre em obra específica.

Homenagens que brotam da verdade

Não consegue planejar homenagens racionalmente. Todas surgem de necessidade genuína de explodir sentimentos. Dessa maneira, pintou a esposa como árvore da vida, multicor e pulsante.

“Vi ela se transformar tanto quanto me transformei”, reflete. Algumas transformações foram bonitas, outras cruéis. Todavia, todas aprofundaram a essência do casal.

“Não tinha como não homenagear minha esposa, a guerreira, meu par na guerra”, afirma. Nesse sentido, a arte torna-se também registro afetivo.

Síndrome do impostor e busca por validação

Caminhou sempre sozinho no mundo das artes. Temia ser visto como impostor por usar tecnologia digital. Por isso, aproximou-se deliberadamente da pintura impasto, com camadas generosas de tinta.

“Adoro exagerar na quantidade de tinta que vai em cima da tela”, confessa. Desse modo, conecta-se com impressionismo, Bauhaus e expressionismo alemão.

Quando a família elogiou as primeiras obras, desconfiou. Pessoas emocionalmente envolvidas perderiam objetividade científica. Então, buscou validação externa via galerias internacionais.

Realidade aumentada: camadas invisíveis

Algumas obras possuem realidade aumentada. Apontando o celular com aplicativo específico, o espectador vê ondas se mexendo digitalmente. Dessa maneira, adiciona dimensão temporal à obra estática.

Essa fusão tecnológica representa perfeitamente a proposta do digitalismo. Portanto, desafia o espectador a usar ferramentas contemporâneas para experiência artística completa.

Pareidolia do anjo: quando o relevo terrestre revela o divino

Obra que aparece frequentemente atrás do artista nasceu de foto de satélite. Chassard enxergou anjo manifestado no relevo terrestre. Posteriormente, transformou a percepção em pintura vibrante e luminosa.

“É pura luz desse anjo”, descreve. Todavia, não revela ao público sua interpretação. Cada observador pode ver algo diferente. Assim, a obra dialoga com o inconsciente coletivo.

Exposições que nunca visitou presencialmente

Participou de feiras mais importantes do mundo artístico contemporâneo. Entretanto, não esteve fisicamente em nenhuma. O tratamento médico de Théo consumiu recursos financeiros.

“Dilapidei meu capital com o tratamento do meu filho”, explica. Por isso, acompanhou tudo remotamente. Mesmo assim, conquistou representação em continentes diferentes.

Hoje mantém o site www.chassard.com com três coleções curadas. Além disso, segue produzindo obras que exploram o mesmo universo temático iniciado em 2019.

Cores que não existiam na realidade

O Desrealismo busca expressar sensações visuais que a câmera não captura. Por exemplo, pintou Roma em chamas porque o entardecer amarelado evocou o mito de Nero. Igualmente, adicionou geleiras sobre pescadores porque o frio era extremo.

“A fotografia para mim não estava na realidade do que vi com meus olhos”, justifica. Portanto, a arte completa o que a tecnologia não alcança: percepção subjetiva humana.

Legado e continuidade

Chassard segue produzindo intensamente. Obras recentes exploram o olhar materno da esposa e o próprio coração endurecido durante as provações. Contudo, a arte sempre surge como suporte emocional visível.

“A arte me salvou nesse luto”, resume. Assim, cada tela funciona como documento de jornada interior. Théo, portanto, não apenas sobreviveu. Renasceu o pai como artista.

O menino de seis anos carrega responsabilidade involuntária: provocou explosão criativa que colocou o pai em feiras internacionais. Todavia, também ganhou presente valioso: registro visual do amor paterno absoluto.


Relevância cultural e social

A trajetória de Cristiano Chassard representa convergência contemporânea entre tecnologia e arte tradicional. Além disso, demonstra como a criação artística pode funcionar como ferramenta terapêutica em momentos de crise pessoal profunda.

Seu trabalho desafia o purismo artístico ao misturar fotografia digital, manipulação computacional, pintura manual e bordado. Dessa forma, propõe que arte contemporânea não precisa escolher entre tradição e inovação.

Finalmente, a história ilustra resistência criativa diante de adversidade extrema. Transformou diagnóstico devastador em catalisador de produção artística internacional. Portanto, oferece narrativa inspiradora sobre superação e expressão autêntica.

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