Hildelene Bahia: a primeira mulher a comandar um navio na Marinha Mercante Brasileira

De Belém do Pará para o mundo: a trajetória de superação, liderança e pioneirismo de uma mulher que reescreveu a história do mar no Brasil

Uma jovem paraense que escolheu a educação como caminho

Nascida em Belém do Pará, Hildelene Bahia cresceu num contexto em que as opções para mulheres jovens eram poucas: casar cedo, trabalhar precocemente ou investir na educação.

Ela escolheu a educação. Toda a sua trajetória escolar foi feita em escola pública, e, paralelamente, estagiou de manhã num escritório de contabilidade e à tarde na Caixa Econômica Federal.

À noite, cursava ciências contábeis na UFPA. Antes mesmo de se formar, já demonstrava a disciplina e a determinação que marcariam toda a sua carreira no mar.

O encontro inesperado que mudou o rumo de sua vida

Em 1997, ainda no último ano da graduação, Hildelene acompanhou o irmão ao processo seletivo da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, a EFON — quase sem pretensão.

Para surpresa de ambos, ela foi aprovada em 24º lugar. O irmão, por sua vez, não passou. Desse modo, o que seria o sonho dele tornou-se o destino dela.

Anos antes, uma desconhecida a havia abordado numa parada de ônibus em Belém e dito: “Você vai ter uma vida muito próspera, vai conhecer o mundo e vai chegar ao mais alto da sua carreira.” A frase ficou guardada por décadas — e, com o tempo, revelou-se uma profecia cumprida.

“Eu nunca imaginei chegar a ser comandante. Dizia sempre: vou juntar meu pé de meia e vou montar meu escritório de contabilidade.”— Hildelene Bahia, em entrevista ao Portal Uma Só Voz

Quatro anos de formação e o primeiro embarque no mar

Após quatro anos de escola militar, Hildelene embarcou pela primeira vez no navio Lorena. Era a única mulher a bordo.

Além do estranhamento da tripulação, precisou lidar com os receios da família, que conhecia muito pouco sobre o universo da Marinha Mercante. Ainda assim, ela não recuou.

Viagem após viagem, foi conquistando espaço com competência e dedicação — a única moeda que, segundo ela, genuinamente convencia quem duvidava da sua presença naquele ambiente historicamente masculino.

Sete anos no mesmo navio: construindo laços no mar

Durante sete anos, Hildelene permaneceu no mesmo navio-tanque — uma embarcação petroleira de 185 metros e capacidade superior a 50.000 toneladas.

Nesse período, transformou resistências em respeito e criou vínculos que ela compara aos de uma família. “Eu só saí de lá quando chegou o convite para comandante”, relembra.

Antes de assumir o posto máximo, porém, enfrentou uma viagem decisiva ao Bahrein, país de cultura predominantemente masculina, onde buscou um navio em docagem. Hildelene descreve essa experiência como “um divisor de águas” na sua trajetória profissional.

Carreira ativa: Mais de 25 anos

Tempo médio embarcada: 8 meses por temporada

1ª viagem como comandante: Rota Rio–Manaus

Destinos internacionais: Argentina, Chile, Cingapura, Emirados Árabes e outros

A promoção que chegou quando ela menos esperava

O convite para assumir o comando chegou enquanto Hildelene estava de celular desligado, descansando. Naquele momento, ela chegou a cogitar migrar para o setor de offshore.

Quando finalmente recebeu a notícia, a reação foi de espanto: “As pernas tremeram. Eu esperava que todo mundo fosse comandante, menos eu”, conta com franqueza.

Sua primeira viagem no posto máximo foi a rota Rio–Manaus, com três jornalistas a bordo e um diário de bordo diário exigido — uma prova de fogo para qualquer comandante recém-promovida.

“Foi como sair de um Fusca e pegar uma Ferrari. A embarcação era nova e a tripulação eu escolhi a dedo. Foi o melhor período da minha vida.”— Hildelene Bahia

Reconhecimentos nacionais e internacionais

Ao longo da carreira, Hildelene acumulou um histórico de honrarias que reflete o impacto de sua trajetória dentro e fora do Brasil.

Entre as principais distinções estão a Medalha Tiradentes, a Ordem do Mérito Naval, o título de Cidadã do Estado do Rio de Janeiro e o prêmio da UEA recebido no Panamá — cerimônia que ela descreve como uma festa inesquecível.

Nesse percurso, foi também embaixadora da Boa Vontade no Brasil, madrinha do veleiro Alegrete em 2015 e homenageada com seu nome dado à turma da EFON de 2019.

Mulheres Aquaviárias: da solidão à rede de apoio coletiva

Mesmo após alcançar o posto mais alto, Hildelene percebeu que abrir o mercado não era suficiente. Era preciso criar estruturas de apoio para as mulheres que chegavam depois dela.

Com duas colegas eletricistas, criou um grupo de WhatsApp que cresceu até reunir quase mil integrantes — o grupo Mulheres Aquaviárias do Brasil, hoje formalizado como associação.

O espaço oferece vagas de estágio, orientação técnica, apoio jurídico em casos de assédio e palestras sobre saúde mental, por meio do evento Mar de Saberes. “Não adianta chegar ao topo e virar as costas para quem está começando”, afirma.

Marinha do Brasil e Marinha Mercante: entenda a diferença

A Marinha do Brasil é uma força militar responsável pela defesa do território nacional. Seus integrantes seguem carreira militar até a reserva remunerada, por meio de concurso público.

Já a Marinha Mercante tem missão econômica: transporta commodities, petróleo, medicamentos e eletrônicos, garantindo o desenvolvimento logístico do país. Ao final do curso, o profissional passa à reserva não remunerada e atua como civil.

As duas carreiras são, portanto, distintas em formação, regime e objetivos — embora historicamente interligadas, como no episódio dos navios torpediados durante a Segunda Guerra Mundial, que levou o Brasil a entrar no conflito.

Como ingressar na Marinha Mercante

  • Via EFON: Jovens de 17 a 22 anos com ensino fundamental completo; edital geralmente em maio, prova em agosto
  • Via AZON: Nível superior exigido; sem limite de idade; 1 ano de escola e 1 ano de praticagem supervisionada
  • Via PREPOM: Para funções como cozinheiro, eletricista, condutor e moço de convés; verificar calendário no site da Marinha
  • Escolas no Brasil: CIAGA (Rio de Janeiro) para Sul, Sudeste e Centro-Oeste; CIABA (Belém) para Norte e Nordeste
  • Contato: Instagram: @comandante.delene | LinkedIn: Delene Bahia

Escritora, pesquisadora e voz ativa pelo legado feminino

Em 2025, Hildelene publicou o livro coletivo Renasci de Mim, no qual narra passagens da infância em Belém, o ingresso na Marinha Mercante, a viagem ao Bahrein e a origem do movimento Mulheres Aquaviárias.

Além disso, assina um artigo acadêmico disponível gratuitamente na internet, intitulado A mulher como oficial na Marinha Mercante, produzido como trabalho de conclusão de curso da Escola Superior de Guerra.

Palestrante atuante, ela leva sua história a eventos, universidades e empresas — sempre com o objetivo de encurtar o caminho para as mulheres que vêm depois dela.

Uma história que ainda está sendo escrita

Hildelene Bahia transformou a Marinha Mercante Brasileira não apenas por ser a primeira mulher a comandar um navio, mas por entender que o verdadeiro legado está em quem ela ajuda a avançar. Sua trajetória mostra que barreiras estruturais se quebram com competência, persistência e, sobretudo, com a generosidade de quem estende a mão para as que vêm depois.

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